Nas estradas e encruzilhadas da Vida, liberto das roupagens da vaidade e da jactância, tento merecer esta minha condição de ser vivo.

03
Mar 09
Silas Corrêa Leite

Enquanto se vê em todos os estados a atuação brilhante, ampla, total, irrestrita e determinada do Ministério Público, com quase todos os governos sofrendo o crivo de ações investigativas com rigor e transparência, podemos dizer que em São Paulo, por exemplo, falta uma área do Ministério Público afeta aos direitos humanos dos professores públicos.
Para começar, em São Paulo o educador ganha 30% menos que o professor do Piauí, e ninguém faz nada, ninguém critica ou investiga. Suspeito. Caso de denunciar à ONU?
Para piorar, amigos da escola não são necessariamente amigos da escola, quando não são mesmo amigos do alheio na escola, por assim dizer. Muitas ONGs têm como membros ex-secretários da Educação e afins que, quando no governo, nada fizeram, pioraram ou até quase faliram a Educação Pública. Agora, na rede privada, suspeitamente ganham dinheiro palpitando e oferecendo régios préstimos que precisam ser investigados. Estranho.
E ninguém age em favor da transparência pública na área. Depois, por incrível que possa parecer, e, considerando que a Educação Pública é coisa séria, pacotes suspeitos e regiamente pagos (só para grupos privados) são impostos para a escola pública de cima pra baixo (sem qualquer noção da clientela real ou da realidade docente), de forma pouco ou quase nada ético-democrática. Isso sacrifica sobremaneira a equipe técnico-administrativa das escolas (já defasadas nesse sentido, sem aparato de estrutura funcional), como se cada decisão de gabinete com ar-refrigerado (a vida na escola é outra coisa) fosse um doloroso “passa-moleque” no professor que, com curso superior, tendo passado por um puxado concurso avaliatório (muito mais difícil do que para delegado, por exemplo), ganha menos do que um policial que tenha mero Ensino Médio.
Aliás, São Paulo é o único estado em que professor ganha menos do que policial. Já pensou? Pois é. O professor qualificado, testado e efetivado, tem que trabalhar em duas escolas ou mais, fazer bico (para recompor o salário) de vendedor a camelô-sacoleiro em trânsito, enquanto, aqui e ali, nalguma propaganda enganosa de certo governo mais pro neoliberal do que para o ético-humanitário, tudo é uma beleza, parece que estamos em Genebra, na Suíça.
E ninguém faz nada, ninguém fala nada. Quem tem medo da Escola Pública? Todo mundo que tem gabarito e é vencedor teve um professor pela frente um dia, para ser o que é.
Mas quando o Governo Federal sabiamente aventa alta verba para a escola pública, sanguessugas e vampiros da Educação se mobilizam e querem fatias do bolo, parcela da grana – muitos deles já estiveram no poder e não resolveram nada. Como querem ter moral para fundar ONGs de becos e se meter a analistas, pesquisadores, teóricos de ocasião, donos da verdade?
Nas escolas faltam funcionários, falta suporte operacional, o professor tem que se virar para trabalhar conteúdos mesmo quando uma ou outra sala periférica mais parece uma micro-Febem; idéias estranhas são impostas de cima pra baixo; o professor é sempre surpreendido com coisas esdrúxulas ou malfeitas, sem ser consultado quando deveria ser, pois ele é melhor do que o problema; autoridades passam, boas ou más.
O servidor concursado, efetivo, sofredor, estudando ainda, fica com o peso do problema, o ônus da situação sociocultural, quando na realidade não vê lucros ou saca montagens de mudanças que na verdade não mudam nada – são apenas vernizes, aparências, que enganam e depois eventualmente servem para paradoxais horários políticos eleitorais.
Quando é que, realmente, de verdade, alguma mudança de peso democrático vai ocorrer na escola pública? Eu sou do tempo em que professor ganhava o mesmo que um juiz; hoje, professor tem que se matar para sobreviver e ainda agüentar a parte tendenciosa da mídia que, na verdade, quer cada vez mais privatarias do que humanismo de resultados.
Será que as instituições sérias, de renome, que defendem a escola pública, têm que denunciar em foro internacional o salário constrangedor e degradante dos professores de São Paulo?
Alguém já pensou em fazer uma reportagem investigativa da vida dos diretores das Escolas de São Paulo, para mostrar que eles se matam para ganhar menos do que um motorista de ônibus de São Paulo? Ser diretor de escola pública é a prova inconteste e cabal da própria violação dos direitos humanos de um profissional que carrega um problemão nas costas e ninguém faz nada, ninguém dá suporte efetivo de funcionabilidade – quando não empresas privadas à guisa de investir (e glosar o imposto de renda?) atuam nas escolas e querem o que não podem e legalmente não deveriam,.sob a ótica ético-legal. A verdade dói.
Escola Pública é coisa séria. Bônus, pacotes, infiltrações de amigos do alheio no meio escolar não compactuam com o ideário dos professores realmente comprometidos com uma educação de qualidade.
Ou mudam as falsas mudanças ou a escola pública não vai ser mudada como realmente precisa ser e deveria ser.
Quem é que vai pagar por isso?

*
Silas Correa Leite
Especialista em Educação, jornalista comunitário, Conselheiro em Direitos Humanos

E-mail:
poesilas@terra.com.br
Blogue:
http://www.portas-lapsos.zip.net/
publicado por Do-verbo às 23:01

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