Nas estradas e encruzilhadas da Vida, liberto das roupagens da vaidade e da jactância, tento merecer esta minha condição de ser vivo.

23
Nov 08

Quem viveu os dias sombrios do salazarismo e neles, sob ameaças e medos e angústias e sobressaltos, se ganhou em acções perspectivadoras de primaveras prenhes de anseios e dias de claridade, saberá do que falo.

Alerta, a delacção, aquartelada a cada esquina. Doía vivermos um tempo em que até desconfiávamos da própria sombra. Acabrunhávamo-nos a cada notícia que passava as malhas da censura, quase sempre através das rádios de além-fronteiras.

Vivíamos num país onde se queria que nada acontecesse. E tanto assim era para tantos, que é vulgar ouvirmos os incautos dizerem, hoje, ainda, que antes não havia tantos problemas como os que a Informação falada e escrita agora noticia.

Com a Revolução dos Cravos, chegou a liberdade de expressão e de associação. Finalmente, vivíamos em Liberdade. Da noite da opressão, saltaram os livros proibidos, as cancões proibidas. As portas das prisões abriram-se de par em par e o delito de opinião foi abolido.

O clandestino Avante!, o único jornal português que nunca foi vítima do famigerado lápis azul da Censura, saltou para as bancas.

O Partido Comunista e o recém-formado Partido Socialista apareceram à luz do dia. Outros Partidos Políticos se formaram. A Democracia Pluralista estava aí!

Agora, o Povo poderia conhecer os programas propostos e optar por eleger como seus representantes aqueles que considerasse mais aptos para defenderem os seus interesses e materializarem os seus legítimos anseios.

Os mais empenhados na res publica aderiram à militância partidária, no esforço colectivo que a Democracia exige.

Ainda hoje estão na nossa memória os nomes de muitos, uns que já não estão entre nós, outros que as circunstâncias afastaram.

Trinta e quatro anos é tempo!

Falar dos dias de hoje é desnecessário. Todos vivemos o dia a dia e sabemos das esperanças adiadas, das frustações diversas, do dia de amanhã comprometido por dificuldades.

Nestes tempos difíceis, onde todos não somos de mais, importará saber o porquê do afastamento de tantos. Por acomodação? Por cansaço? Por desencanto?

Ouvimos amiúde falar de rejuvenescimento, o que poderá equivaler ao afastamento de gente experimentada, de gente que conheceu o antes e o depois. E vemos, com alguma frequência, situações de debilidade em quantos que, assumindo cargos de responsabilidade, acusam a inexperiência decorrente dos seus verdes anos.

A Juventude é generosa. Sempre o foi. Mas será avisado atribuir-lhe funções que exigem aprofundado amadurecimento?

Será avisado entregar o leme da barca ao aprendiz de marinheiro? Saberá ele ler nas estrelas o rumo certo? Conhecerá ele os escolhos e baixios encobertos pelas águas? Já terá ele ouvido falar de ventos e correntes e procelas onde se acobertam naufrágios? Saberá ele defender-se dos enganadores e quase sempre mortalmente perigosos cantos das sereias?

Todos sabemos que navegar é preciso!

Mas não foi um aprendiz de marinheiro que dobrou o Cabo das Tormentas.

O homem do leme é sempre mais do que ele-mesmo, é sempre um Povo que navega rumando a Porto Seguro.

Até sempre!
 
Gabriel de Fochem
publicado por Do-verbo às 02:57

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