Nas estradas e encruzilhadas da Vida, liberto das roupagens da vaidade e da jactância, tento merecer esta minha condição de ser vivo.

13
Nov 09

 

Impenitente aprendiz, registo os sinais da memória vigilante. Aqui, é um caminho sem pressa de chegar; alí, é um valado bem guardado de silvas, amodorradas ao sol, enquanto as suas amoras amadurecem a saborosa guloseima da passarada; além, é o monte silencioso, no abandono da terra; mais além, em todo o derredor, é o azul, numa campânula celeste de parada beleza.

 

Ah,
 
Se fores ao Alentejo,
não bebas em Castro Verde,
que as fontes cheiram a rosas
e a água não mata a sede.

 

 

O silvo de um comboio corta o silêncio. Os carris rasgam a imensidão das herdades. São raras as povoações que serve neste percurso ferroviário do Barreiro à Funcheira. Muitas das estações ficam a uma distância de quilómetros. Algumas já foram desactivadas e, ao abandono, arruinam-se. O critério que determinou o rasgar desta Linha de Sul não teve seguramente a finalidade de servir as populações. Assim foi no século XIX, assim foi no século XX, assim continua neste século XXI.

 

Aqui, as minhas primeiras idas a Lisboa eram uma aventura: de churrião, cumpria os quatro quilómetros da vila até à estação, estação que foi desactivada, se a memória me não trai, na década de sessenta do século XX. Hoje, para utilizar a linha férrea, terei de cumprir seis quilometros, de táxi, até à estação mais próxima, situada noutro concelho.
Uma maravilha de serviço público!

 

Há cerca de ano e meio, devido a internamento hospitalar de minha mulher, em Évora, durante um mês, utilizei, diariamente, o transporte colectivo rodoviário. Apenas de segunda a sexta-feira, por não haver esse transporte aos sábados, domingos e feriados.
Outra maravilha de serviço público!

 

Este é o país real.

 

Até sempre!

 Gabriel de Fochem

publicado por Do-verbo às 21:23

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