Nas estradas e encruzilhadas da Vida, liberto das roupagens da vaidade e da jactância, tento merecer esta minha condição de ser vivo.

09
Dez 11

 

 

É quando a noite cai e o frio na lareira
descobre que sem lenha o fogo não se ateia,
que um grito de aflição assombra a pasmaceira
que anestesia há muito o povo desta aldeia.
 
E tocam a rebate os sinos da capela!
O burburinho cresce e vai de rua em rua.
E quem não vai, está olhando da janela
a vida que palpita e livre se cultua.
 
E corre o rapazio, ousando a sedução
de ser e de crescer nas asas da cantiga,
como o pião que roda e roda em sua mão
até parar feliz e exausto de fadiga!
 
E o frio se transmuta em fogo e ganha alturas,
instante a crepitar antemanhãs maduras!
 
 
José-Augusto de Carvalho
9 de Dezembro de 2010
Viana*Évora*Portugal
publicado por Do-verbo às 12:17

08
Dez 11




Quebradas as amarras, sobre as águas
balouça, livre, a barca da esperança!
Não fiques mais carpindo dor e mágoas.
que só quem persevera é quem alcança.
Se perdição houver, que fique o gesto!
Perdido já está quem se rendeu.
Se bem que neste outono, aqui me apresto
a ser mais um Abril que floresceu...
Recuso-me a deixar a triste herança
dum solo pátrio exausto do milagre
que se renova em cada primavera!
 
Quem quer deixar morrer a esperança?
Que a força a resistir nos salve e sagre
enquanto a vida em nós se regenera!...
José-Augusto de Carvalho
7 de Dezembro de 2011.
Viana*Évora*Portugal
publicado por Do-verbo às 17:37

26
Nov 11
Foto Internet, com a devida vénia
Pedra a pedra, levantas o muro.
Tanto assim a discórdia apetece?
Deste lado do muro, depuro
cada dia que a vida amanhece.
Pinceladas de cor e feitiço
das manhãs a florir madrigais
na menina que atreve um derriço
e se esconde a mentir os seus ais…
E negando arrebois ao futuro,
pedra a pedra, levantas o muro…
Meio-dia! No sino da Igreja,
badaladas precisam as horas.
Uma açorda fumega na mesa.
Faltas tu! Por que tanto demoras?
E negando arrebois ao futuro,
pedra a pedra, levantas o muro…
Pela tarde, sufoca o braseiro
deste sol que encandeia e nos cresta.
Arrojado, quem é o primeiro
a gritar que este rumo não presta?
E negando arrebois ao futuro,
pedra a pedra, levantas o muro…
Num altar de esperança exaltante,
é a vida que grita e palpita
contra as iras do vento ululante
e bandeiras de fúria e vindicta…
E negando arrebois ao futuro,
pedra a pedra, levantas o muro…

 
José-Augusto de Carvalho
25 de Novembro de 2011.
Viana*Évora*Portugal
publicado por Do-verbo às 17:27

25
Nov 11
 

 

Conheço ainda todos os caminhos
 
que cruzam estes campos malamados.
 
Aqui, eram mais densos os montados
 
e neles o temor fazia os ninhos…
 
 
 
Além, as limpas abrem horizontes
 
que foram já de pão e dura faina.
 
Ainda, abandonados, ermos montes
 
resistem ao torpor que não amaina.
 
 
 
No inverno, venta rijo e dói o frio.
 
No estio, o sol requeima sem piedade.
 
Deambula o tempo como um cão vadio
 
que, dócil, nem da fome já se evade…

 
 
E eu fico perguntando-me, obstinado,
 
que espero, aqui, inútil e parado?
 
 

 
José-Augusto de Carvalho
25 de Novembro de 2011.
Viana*Évora.Portugal
publicado por Do-verbo às 15:35

17
Jul 10

 

A feira dos medíocres continua!
Senhores, quem dá mais? Quem arremata?
Sujeita à turba e à provação da rua,
a chusma de alimárias à arreata!
 
Os guizos, nos molins, são uma festa!
Em algazarra, corre o rapazio!
Morenos pelo sol que em fogo cresta,
ciganos e malteses de ar sombrio...
 
Barracas de andrajoso amor comprado,
um vómito de nojo purulento!
E, ao sol deste martírio, o descampado
inteiriçado ao frio do relento...
 
Lá longe, na cidade bem guardada,
a corte, em seus festins, não dá por nada...


(Nihil sine causa, nada existe sem uma causa, Cícero)
Viana do Alentejo*Évora*Portugal
26 de Janeiro de 2000.
publicado por Do-verbo às 17:08

09
Jul 10
 


Cada dia que passa, o mundo é mais pequeno.
As notícias que chegam, desnudam as misérias paridas pelo incensado avanço duma civilização que se reclama, aos quatro ventos, dos direitos humanos.
A civilização que, num frenético leilão, compra e vende consciências.
A civilização que avilta a dignidade em chás de caridade e em paradas de pompa e circunstância.
Ah, e como as pantalhas de todas as latitudes disputam, como as feras, a presa indefesa, em acções concertadas de eficaz e paciente anestesia!
Ah, e como a presa indefesa e quase inerme voga na corrente dum recuperado Hades, donde foi banido Caronte e a sua barca!...

É preciso vender! É urgente vender! É inadiável vender, cada vez a preços mais acessíveis, as manhãs sem sol, o mar sem vida nem aventura, a desgraça sem fim da desesperança!

É preciso vender! É urgente vender! É inadiável vender o elixir da alienação, para, mais e mais, ser garantida a ostentação dos poderosos!

É preciso vender! É urgente vender! É inadiável vender as lotarias que fazem um rico e desesperam milhões de pobres!

É preciso vender! É urgente vender! É inadiável vender balelas coloridas que distraiam o dia sem fim e torturam de sonhos a noite da vida!

É preciso lamentar! É urgente lamentar! É inadiável lamentar o luto dos sobreviventes da catástrofe!

É preciso chorar! É urgente chorar! É inadiável chorar o pranto continuado das carpideiras que, por trinta dinheiros, elegem heróis os mortos, os mortos que já nada podem reclamar aos vendedores de ilusões e mentiras e aos carcereiros desta penitenciária de segurança provada, que pretende a fuga impossível e a morte o alívio que resta!

É preciso calar! É urgente calar! É inadiável calar os gritos lancinantes dos condenados!

É preciso calar! É urgente calar! É inadiável calar as verdades alucinadas da loucura que ainda grita que o rei vai nu na força da vontade que recusa render-se!

É preciso incensar o Poder! É urgente incensar o Poder! É inadiável incensar o Poder que legitima as cruzes intemporais de todos os calvários!

É preciso regressar a Roma! É urgente regressar a Roma! É inadiável regressar a Roma e recrucificar todos os perigosos malvados que sabem conjugar o verbo em todos os tempos.


Viana*Évora*Portugal 
Julho de 2010
publicado por Do-verbo às 15:10

21
Jun 10
Homenagem a José Saramago
 
 

N' «A jangada de pedra» partiste.
Tenebroso é o mar, nós sabemos,
mas, à vela ou à força de remos,
sempre chega quem nunca desiste.
 
«Levantados do chão», nós seremos
a certeza de nós que entreviste
mais além do «Mostrengo» que existe,
porque mais Cabos Não dobraremos.
 
Na memória dos nossos avós,
vem o sonho que apenas se faz
quando um homem tem pão e tem voz.
 
Chegaremos. E tu estarás,
sorridente, no meio de nós,
nesse cais de verdade e de paz.
 
 
José-Augusto de Carvalho
20 de Junho de 2010.
Viana*Évora*Portugal
publicado por Do-verbo às 10:13

25
Abr 10

A Rosa dos Ventos - Ponta de Sagres, Portugal
 
 
Recuso ser, na noite, a sombra que desenha
a angústia indefinida e fria deste cais.
O que tiver de vir, se mais houver, que venha,
Mostrengo, Adamastor e Fim do Nunca Mais!

 
O leme se quebrou. Ao vento, as rotas velas
ensaiam os sinais das barcas à deriva.
Que velhas perdições?! Na consciência delas,
assombram predições doendo em carne viva.
 
Que venham os pinhais gritar o desafio
do tempo por haver que acena o amanhecer
além deste torpor indefinido e frio!
 
Que venha a tentação sortílega tecer,
com arte e com engenho, o já lendário fio
da espera que germina um novo acontecer!...
 
 
José-Augusto de Carvalho
20 de abril de 2010.
Viana * Évora * Portugal
(Apenas com este poema me é possível assinalar a Revolução dos Cravos, ocorrida em 25 de Abril de 1974.)
publicado por Do-verbo às 10:18

26
Mar 10
 

Dos ontens perdidos,
só a nostalgia
aquece os sentidos
da mortalha fria...
 
Nos hojes havidos,
que bússola-guia
aquece os sentidos
da nossa apatia?
 
Que amanhãs floridos
de instante utopia
nos nossos sentidos
serão ousadia?
 
 
José-Augusto de Carvalho
10 de Agosto de 2007.
Viana*Évora*Portugal
publicado por Do-verbo às 21:12

02
Nov 09
 
 

 

Vocês vieram depois
das trevas da noite densa
e encaram com displicência
os medos da nossa insónia...
 
Vocês vieram depois
dos tempos das grandes fomes,
quando nos negaram ter
nosso tempo de meninos...
 
Vocês vieram depois
do tempo da delação,
das masmorras e torturas
de todos os Tarrafais...
 
Vocês vieram depois
e nem sequer lhes ocorre
que nós arriscámos tudo
para erguer este depois...
 
Vocês vieram depois
e não nos devem nada...
 
 
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 3 de Setembro de 1996.
 
1- Memória do nazifascismo.
2- O Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, mandado construir pela ditadura fascista de Salazar, foi inaugurado em 1936 e encerrado em 1954. Em 1962, voltou a reabrir, mas só para os naturais das ex-colónias portuguesas, e foi definitivamente encerrado após o 25 de Abril de 1974.
publicado por Do-verbo às 21:45

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