Nas estradas e encruzilhadas da Vida, liberto das roupagens da vaidade e da jactância, tento merecer esta minha condição de ser vivo.

30
Ago 14

 

 

 

Saboreio os sentidos da palavra,

a palavra no verso da canção,

a subir, na tontura da evasão,

onde nada ou ninguém a cala ou trava.

 

A palavra que salta do papel

a ganhar-se papoila a mais vermelha!

E sangrando na cor, seduz a abelha

tão sedenta de pólen-raro mel.

 

A palavra que trémula floresce

nos nocturnos doídos da incerteza,

onde o verso recusa ser a presa

que, vergada, se rende e deliquesce.

 

A palavra canção e melodia

que se inventa nas pétalas da flor

e é o mel de dulcíssimo sabor

alentando a porfia cada dia…

 

 

José-Augusto de Carvalho

23 de Agosto de 2014.

Viana*Évora*Portugal

publicado por Do-verbo às 19:26

05
Jul 13
 

 

 

Cada dia que passa o mundo é mais pequeno.

 

As notícias que chegam desnudam as misérias do embuste,

 

do embuste que se reclama dos direitos humanos.

 

 

 

O embuste que avilta a dignidade dos homens,

 

O embuste que enlameia a honra das mulheres,

 

O embuste que assassina a inocência das crianças,

 

O embuste que disputa os despojos da infâmia que gera.

 

 

 

O embuste que, em frenético leilão,

 

Compra e vende consciências.

 

 

 

O embuste que clama pelo fim dos tempos:

 

É preciso vender!

 

É urgente vender!

 

É inadiável vender

 

As manhãs orvalhadas de vida,

 

As noites enamoradas dos rouxinóis,

 

O mar salgado de lágrimas dos desencontros dos amantes,

 

As auroras da esperança!

 

 

 

O embuste que inventou os pobres

 

e lava a consciência das aparências

 

nas águas salobras da caridadezinha e das esmolas.

 

 

 

O embuste que inventou a lotaria,

 

a lotaria que faz um rico e desespera milhões de pobres...

 

 

 

O embuste da palavra que anestesia os ofendidos

 

e tortura os sonhos da noite da servidão.

 

 

 

O embuste que vocifera do cimo do palanque:

 

É preciso calar os gritos dos humilhados!

 

É urgente sufocar o sangue dos revoltados!

 

É inadiável crucificar todos os perigosos malvados,

 

esses perigosos malvados que sabem conjugar

 

o verbo em todos os tempos!

 

 

 

 

 

José-Augusto de Carvalho

 

1 de Julho de 2013

 

Viana * Évora * Portugal

publicado por Do-verbo às 10:41

01
Jul 13
 

 

 

 

 Desenho de José Dias Coelho
 
 
Caminhemos! Além do cerro, caminhemos!
Sob a névoa, há sinais do fogo que se ateia.
Enrubesce a manhã. E o seu clarão semeia
primaveras de nós. Ousados, caminhemos!
 
A bandeira da Vida, ao alto, desfraldemos!
Com a força do braço e da vontade plena!
No futuro do olhar, o longe já acena.
Sem temor nem cansaço, ousados, caminhemos!
 
Já perdeu quem ficou na renúncia da espera.
Já perdeu quem escolhe o pão da rendição.
Ah, que seja amassada esta fome do pão
em cansaços que só a liberdade gera!
 
É de mim e de ti, de nós todos, nesta hora,
a razão de partir «por esses campos fora»!...
 
 
José-Augusto de Carvalho
30 de Junho de 2013.
Viana * Évora * Portugal
publicado por Do-verbo às 15:58

24
Jan 13

Campo de papoilas, foto internet
 
«O Alentejo não tem sombra
senão a que vem do céu…»
Se tanta lonjura assombra,
mais assombra a tremulina
que cai, em dourado véu,
sobre o espanto da campina.
*
São os caminhos dos olhos
a rasgar os horizontes,
onde o «alecrim aos molhos»
perfuma a sede das fontes
e a ternura das cantigas
doira a fome nas espigas.
*
É esta raia de Espanha
acendendo a tentação
de buscar em terra estranha
o alor que leveda o pão…
Sonho roendo as entranhas
em dorida punição.
*
É esta angústia que canto
da promessa dum país,
é este parto de espanto,
nos desolados adis,
um manto que tudo cubra,
sangrando, em papoilas rubras.
*
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 22 de Janeiro de 2013.
publicado por Do-verbo às 16:09

12
Set 12

 

 

 

Disse adeus à minha terra

e deserdado parti.

Soldado, não fui à guerra;

a paz nunca conheci.

 

Por caminhos devastados

p'la razão da força bruta,

fui mais um dos humilhados

da resistência e da luta.

 

Mas descobri-me integral

quando minha fiz a Terra,

sem mentiras nem fronteiras.

 

E nascido enfim plural,

sofro todas as canseiras

e morro em todas as guerras.

 

  

José-Augusto de Carvalho

In Sortilégio, Lisboa, 1980.

publicado por Do-verbo às 19:13

05
Set 12
 

 

Jaziam amordaçadas,

Nas trevas da negação,

As auroras orvalhadas

De liberdade e de pão.

 

O vento agreste trazia,

Na noite de ódio vestida,

As notas da melodia

Duma canção proibida.

 

Os versos da rebeldia,

Nas bocas amordaçadas,

Bailavam a ousadia

De auroras adivinhadas.

 

Era o quebrar das algemas

Com a força dos poemas.

 

 

José-Augusto de Carvalho

Lisboa, 7 de Agosto de 2012.

publicado por Do-verbo às 12:45

10
Jan 12



 

Aqui chegado, páro.
É tempo de balanço.
Se pródigo não fui, também não fui avaro.
E, agora, como avanço?
No velho cais, resiste
a lusa lenda alada, antiga doutras eras.
Não só o fado triste
chorando a perdição de mortas primaveras.
No velho cais, existe
o grito que ficou e a pedra glorifica.
O grito desta voz que viva não desiste
e nem rendida fica.

 
José-Augusto de Carvalho
9 de Janeiro de 2012.
Viana*Évora*Portugal
publicado por Do-verbo às 22:45

06
Jan 12
Sofremos, e na dor do sofrimento,
gerámos esta força de ir avante.
Oh, minha terra amada, dá-me alento
p'ra que de cada queda me levante!
Regámos cada morto com o sal
das lágrimas choradas no desgosto.
Oh, minha terra amada, tanto sal
abriu em chaga as rugas do meu rosto!
Fizemos um poema de louvor
das modas p'lo trabalho consagradas.
Oh, minha terra amada, e tanto amor
por jornas de tão baixas desgraçadas.
Sentimos que chegara um tempo novo
naquele amanhecer de Abril em festa!...
Oh, minha terra amada, tanto povo
sofrendo agora o nada que nos resta!
Mas sempre nesta força de ir avante,
não esmorece o tempo nem o alento.
Oh, minha terra amada, que o teu cante
não silencie o teu encantamento!

José-Augusto de Carvalho
5 de Janeiro de 2012.
Viana*Évora*Portugal
publicado por Do-verbo às 23:25

05
Jan 12
Os dias acontecem devagar,
ao ritmo do relógio que inventámos.
Em Maio vem o tempo de ceifar
o trigo que em Novembro não semeámos.
 
O ciclo natural do nosso pão,
alheio à míngua em dor da nossa mesa.
Ah, pátria minha, tanta provação
e tantos horizontes de incerteza!
 
Um rictus quase obsceno e vil enruga
a massa levedada que me fita.
No velho cais, em lágrimas, a fuga
acena a rendição desta desdita...
 
E eu fico olhando e nem me reconheço...
Que fiz de mim se já nem me mereço?

 
José-Augusto de Carvalho
5 de Janeiro de 2012.
Viana * Évora * Portugal
publicado por Do-verbo às 15:43

15
Dez 11





Nas folhas do calendário,

os homens contam os dias

das contas deste rosário

que eu desfio e tu desfias…

 

Há dias de aniversário

e efémeras alegrias,

outros doendo o fadário

de angústias e litanias…

 

Em Dezembro estou agora.

Mais um ano que passou!

O inverno já não demora…

 

E o milagre nunca ousou

parar o tempo nesta hora

que Pedro depois negou…

 

 

 

José-Augusto de Carvalho

14 de Dezembro de 2011.

Viana*Évora*Portugal
publicado por Do-verbo às 15:19

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