Nas estradas e encruzilhadas da Vida, liberto das roupagens da vaidade e da jactância, tento merecer esta minha condição de ser vivo.

11
Abr 13

 

Esta é a história de dois amigos. Por comodidade, um será identificado por Alfa; o outro, por Ómega.

 

Há anos, Alfa e Ómega encontraram-se. Não se viam desde a adolescência. Cada um quis saber do outro. Depois de inteirados do que consideraram ser necessário, decidiram encontrar-se amiúde e assim reatarem os laços da infância e da adolescência. Verificaram, com agrado, que ambos residiam e trabalhavam na cidade grande. Era uma vantagem. Despediram-se com um até breve!

Depois deste encontro, outros mais se seguiram. E os laços foram estreitando-se. Ambos verificaram que as suas condições de vida ditas económicas eram diferentes. Um vivia folgadamente, outro nem tanto.

 

Certa vez, Alfa convidou Ómega, ao fim da tarde, para irem a um espectáculo de variedades. Ómega, menos abastado, declinou o convite. Surpreso, Alfa quis saber por que motivo lhe era declinado seu o convite. E Ómega, sorrindo, respondeu: somos amigos, mas a tua carteira é maior do que a minha, logo tu tens um poder de compra que eu não tenho. Seremos sempre amigos, mas nem sempre poderemos ser companheiros.

 

Alfa mal disfarçou a mágoa que lhe causou a resposta de Ómega. E nem sequer quis ponderar a disponibilidade para suportar as despesas. Sabia bem que Ómega não aceitaria. A responsabilidade pela desigualdade evidenciada era superior à vontade de ambos. Uma desigualdade de somenos, pois nem tudo na vida se mede pelo poder de compra que se tem ou não tem. Sentiram-se mais unidos na amizade, certos de que os afectos não se compram nem se vendem. Companheiros seriam na longa estrada da vida, nem tanto no supérfluo que a sociedade também oferece, pagando.

Até sempre! 

Gabriel de Fochem

11.4.2013

publicado por Do-verbo às 16:25

06
Mar 13




Ignácio Pedralva era um homem muito respeitado no meio rural onde vivia. As suas barbas brancas davam testemunho de uma vida longa. Já homem feito, casado e pai, assistira à derrocada da Monarquia e ao advento da República. Sem entusiasmos, passara da velha à nova ordem estabelecida. Lia a Imprensa e ouvia com atenção o filho que vivia na cidade.

Alfredo, de quando em quando, conseguia uns dias de licença e visitava o pai. E sorria sempre quando ouvia a pergunta: Filho, como vai a política, lá na cidade?

A República passara. Havia aberto de par em par as portas ao autoritarismo. Como sempre sucede, uns adaptaram-se, outros mantiveram-se fieis ao ideário apeado. Ignácio Pedralva meneava a cabeça, apreensivo. As coisas continuavam a não caminhar bem. Agora, pior.

Alfredo, homem vigoroso de corpo e de entendimento, ficara ao lado dos que resistiam. Sustentava que as forças do reviralho recuperariam a República e os seus ideais de Outubro de 1910. E insistia em transmitir ao pai essa convicção.

Um dia, Alfredo sugeriu ao pai que aderisse a um movimento local. Afirmava que a força residia nas bases. E sentenciava: o Terreiro do Paço não poderá governar contra as bases.

Ignácio Pedralva, sorrindo, respondeu-lhe: Meu filho, nunca fui degrau de escadote para os outros subirem.

Surpreso, Alfredo ficou calado, digerindo a resposta do pai. Entretanto, eram horas de almoço. Sentaram-se à mesa. Uma açorda de alho e poejos com peixe frito esperava-os, fumegando.

Alfredo tentou recuperar a conversa: Pai, não quer pensar melhor no que lhe sugeri?

Ignácio Pedralva, fitando o filho com ternura: Não quero destruir as tuas esperanças com as minhas desilusões. Também as tive e lutei por elas. Fiquei desiludido. Naquele meu tempo, muitos dos que estavam, não eram; e muitos do que eram, não estavam... Entendes-me? E, agora, é demasiado tarde para mim.

Alfredo tentou insistir...

O velho atalhou: Não insistas, filho. A minha decisão está tomada. Apenas desejo que, dessa tua aventura, não saias tão magoado como eu saí da minha. Talvez, quem sabe?, as coisas sejam diferentes, hoje...

E continuaram a refeição, em silêncio.

 

Até sempre!

Gabriel de Fochem

Lisboa, 5 de Março de 2013.

publicado por Do-verbo às 16:02

30
Jun 12

 

É ancestral o anseio de independência. O ouro do palácio do senhor em nada enriquece o servo. Por isso, este sonha ganhar a sua carta de alforria e erguer o seu casebre.
Assim agiram os povos submetidos, anelantes de liberdade. E de esforço em esforço, fizeram seus os montes e as planuras, os rios e outros caminhos. Foi a assumpção do ter para garantia do ser. Os que não lograram obter o seu objectivo, terão de rever o seu percurso e determinar as causas do insucesso relativo. Não há nostalgia da servidão, há sequelas. E quem perde ou aliena os montes e as planuras, os rios e outros caminhos, está regredindo ao palácio dourado do senhor e às algemas da servidão.
O grande poeta Fernando Pessoa recordou-nos que Jesus nada sabia de Finanças. Pois é, eu também nada saberei, mas será necessário saber de Finanças para perceber que quem perde aquilo que tem ficará sem nada? E ficar sem nada é perder o presente e hipotecar o futuro.
Recordo, aqui, uma lenda antiga, que resumo:
Um senhor, que passeava pelos campos, encontrou um velho camponês plantando uma árvore. Admirado, perguntou-lhe:
Pobre velho, na tua idade, para quê plantar uma árvore? Já não terás vida para comer os seus frutos.
E, sábio, o camponês respondeu:
Pois não, eu sei que estou velho, senhor; mas os meus filhos e os meus netos irão comê-los. E isso me basta.
Não há notícia de os filhos ou netos do velho camponês terem alienado a árvore tão amorosamente plantada para eles. E também não há notícia destes filhos e netos saberem de Finanças. Pois…
Até sempre!

Gabriel de Fochem

15 de Maio de 2012.

publicado por Do-verbo às 17:27

13
Mai 12
 
           


Aqui chegado em anos vividos, já pouco me surpreende e já muito me desgosta. Longe vai o tempo da esperança pela esperança ou da expectativa pela expectativa.
 
A vantagem dos anos vividos assenta no capital de desenganos e logros. Capital doloroso, evidentemente, mas indispensável como prevenção.
Um ou outro momento de ventura ou encantamento dulcificam a vida, suavizando o quotidiano, mas nada acrescentam à dignidade colectiva.
Não há pessimismo nem desalento, há, com a possível lucidez, a análise do dia a dia. Do meu dia a dia e do dia a dia dos demais.
Os determinismos da rotação e da translação são indiferentes e alheios ao objectivo humano de viver com dignidade e com a possível satisfação.
Com Bocage, aceito que «os homens não são maus por natureza». E reconheço ser o meio a condicionar o Homem. Há valores que se ganham e há valores que se perdem. É imperioso conhecer as causas destas perdas e não só enfrentar os seus efeitos.
Nos textos (ditos) sagrados e nos profanos, encontram-se relatos da condição humana. Dos seus fastos e das suas misérias. É de sempre o exemplo de quem vive uma vida inteira por uma causa nobre e de quem muda de causas com a conveniência de quem muda de farpela.
Aqui, curvo-me perante a nobreza de carácter.
Aqui, e não por flagelação, tento estar atento a todas as acrobacias e grito não a quem quer o pão e circo de triste memória.
Enquanto vivos, é-nos indispensável a força moral da resistência e a capacidade de perspectivar a dignidade humana como um objectivo a construir dia a dia, incessantemente.
Até sempre!
Gabriel de Fochem
13 de Maio de 2012.
publicado por Do-verbo às 07:43

06
Jan 10

 

Naquela noite, o mocho não piou no meu quintal, como era seu costume, à hora certa do meu adormecer.

Nada entendo do código das aves nem soube ainda por que diz o povo que o mocho, em seu piar, nos traz agouro.

Apenas sei que aquela noite antiga era uma noite igual a todas as demais de primavera.

Cansado, adormeci, sem me ocorrer sequer conjecturar sobre o porquê da ausência do mensageiro alado de desgraças e meu nocturno e velho companheiro das minhas noites fartas de cansaço.

Acordei ao som do meu despertador. Um pouco quase nada antes das sete. O rádio, à cabeceira, dava a noticia:

Aqui, Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas...

Do meu quintal, chegava o pipilar vestido de ternura das aves que saudavam a manhã.

E, nesse instante, dei comigo a perguntar-me:

Por que motivo não teria vindo o mocho, ontem, à hora do meu adormecer?

 Até sempre!

Gabriel de Fochem
25 de Agosto de 2008.

publicado por Do-verbo às 14:40

13
Nov 09

 

Impenitente aprendiz, registo os sinais da memória vigilante. Aqui, é um caminho sem pressa de chegar; alí, é um valado bem guardado de silvas, amodorradas ao sol, enquanto as suas amoras amadurecem a saborosa guloseima da passarada; além, é o monte silencioso, no abandono da terra; mais além, em todo o derredor, é o azul, numa campânula celeste de parada beleza.

 

Ah,
 
Se fores ao Alentejo,
não bebas em Castro Verde,
que as fontes cheiram a rosas
e a água não mata a sede.

 

 

O silvo de um comboio corta o silêncio. Os carris rasgam a imensidão das herdades. São raras as povoações que serve neste percurso ferroviário do Barreiro à Funcheira. Muitas das estações ficam a uma distância de quilómetros. Algumas já foram desactivadas e, ao abandono, arruinam-se. O critério que determinou o rasgar desta Linha de Sul não teve seguramente a finalidade de servir as populações. Assim foi no século XIX, assim foi no século XX, assim continua neste século XXI.

 

Aqui, as minhas primeiras idas a Lisboa eram uma aventura: de churrião, cumpria os quatro quilómetros da vila até à estação, estação que foi desactivada, se a memória me não trai, na década de sessenta do século XX. Hoje, para utilizar a linha férrea, terei de cumprir seis quilometros, de táxi, até à estação mais próxima, situada noutro concelho.
Uma maravilha de serviço público!

 

Há cerca de ano e meio, devido a internamento hospitalar de minha mulher, em Évora, durante um mês, utilizei, diariamente, o transporte colectivo rodoviário. Apenas de segunda a sexta-feira, por não haver esse transporte aos sábados, domingos e feriados.
Outra maravilha de serviço público!

 

Este é o país real.

 

Até sempre!

 Gabriel de Fochem

publicado por Do-verbo às 21:23

28
Mai 09

 

 Sabia que o autoproclamado Estado Novo foi, entre muitas outras coisas, um reino do faz de conta. O que estaria longe de supor é que também este país de novembro o seria.


Hoje, desde o desfile dos que mudaram de ideário aos descaramento dos que ensaiam acrobacias para se equilibrarem no arame e negarem o óbvio, tudo é uma farsa. E os casos são sérios de mais para os encararmos com um sorriso de indiferença.

Os tempos que vivemos são de grande complexidade, agravada pela ambiguidade de uns e pela desfaçatez encapotada ou declarada de outros. E o povo interiorizou uma indiferença desencantada, resumindo-a num agastado «São todos iguais!».

Sem saudosismos, mas com verdade, aliás de fácil verificação para quem duvide, creio bem ser urgente um regresso à autenticidade, ao saber e ao decoro, à entrega e ao despojamento cívico, para se retomar o caminho da esperança íntegra e autêntica.

Basta de mistificação!

Basta de carnaval!

 

Até sempre!

Gabriel de Fochem

publicado por Do-verbo às 22:39

24
Mai 09

 

Nunca o ano foi ruim por haver fartura
Pois é, a safra será sempre boa quando corresponde em quantidade e qualidade ao esforço-objectivo da sementeira? Ou convirá determinar o que é uma boa sementeira e também uma boa safra?
Diz a sabedoria dos povos que «quem semeia ventos, colhe tempestades». Posto isto, facilmente se entende que semear ventos não corresponderá a uma boa sementeira; logo colher tempestades, ainda que fartas, também não constituirá uma boa safra.
A memória dos homens regista os malefícios dessas muitas e muitas sementeiras e muitas e muitas safras envenenadas. E, apesar disso, as sementeiras e correspondentes safras continuam, para nossa desgraça.
Recentemente, falando com um amigo, dizia-me ele que essa história das ideologias já não conta. Tentei, em vão, recordar-lhe que o Pensamento do Homem determinou as correntes de opinião e delas decorrem as diversas respostas aos problemas, constituindo uma riqueza colectiva a nunca desprezar. Manteve a sua opinião.
Sabendo todos nós que, em democracia, das correntes de opinião resultaram os partidos políticos, concluiremos que que aquela posição do meu amigo é a negação das correntes de opinião enquanto tal responsáveis e responsabilizáveis.
Não quero nem posso acreditar na falência do Pensamento do Homem, mas sei que a opinião que divulgo aqui é subscrita por muitas pessoas, numa evidente condenação dos partidos políticos que nem sempre respeitarão como é seu dever os ideários de que se reclamam. E da falência do Pensamento do Homem ao ressurgir do homem-salvador vai um passo. E a História aí está a dar-nos conta desses homens-deuses e dos rosários de amarguras que provocaram.
Até sempre!

Gabriel de Fochem

publicado por Do-verbo às 15:40

11
Mai 09

 

Através dos meios ditos de comunicação social, chegam, ao meu «monte», notícias e mais notícias e comentários e mais comentários às mesmas notícias.
É uma fartura de «louvar a Deus»!
Da política ao futebol, dos pimbas da música aos da banca, que sei eu!...
Vivemos este tempo que tudo nivelou por baixo, tão por baixo que se compraz em enveredar por subterrâneos.
Por vezes, parece que os vários tempos do Tempo se assemelham às consabidas três fases dos impérios: ascensão, apogeu e queda.
Como toda gente, herdei o saber do tempo dos meus pais e avós. E com essa riqueza de saber, preparei-me como pude para enfrentar o meu tempo e dele perspectivar o tempo futuro. E é aqui que as dificuldades surgem, neste preciso momento em que este hoje é de angústia e o amanhã é uma aflitiva incógnita.
Ensinaram-me a respeitar valores então considerados de todos os tempos. Ora esses valores, hoje, estão a ser questionados na prática quotidiana.
Bem sei que estão sempre em mudança os tempos e as vontades, mas evolução e degradação têm significados diferentes e provocam também situações diferentes. E também sei que a evolução e a degradação não aparecem por geração espontânea.
Exactamente por tudo isto, daqui do meu «monte», eu grito:
«Abaixo a distracção!»
Antes que seja tarde de mais...
Até sempre!
Gabriel de Fochem
 
publicado por Do-verbo às 00:19

08
Mai 09

 

Dizia-me um velho e querido Amigo, falecido há muitos anos, que a perenidade do Estado Novo trouxera uma única vantagem: a de testar a resistência dos seus opositores. A idade traz consigo o tal saber de experiência feito. E se os tempos são outros, agora, semelhantes serão na sua acção de testar a resistência.

 

Aquando da queda da ditadura, eram mais as lapelas do que os cravos. Só que, como muito bem disse um velho resistente, «Nem todos os que estão, são; nem todos os que são, estão.»

 

Muito se comentam os «desvios» do PREC. E que fizeram os arautos da «pureza» dos Ideais de Abril? O 25 de Novembro de 1975!

 

Hoje, trinta e três anos passados à sombra tutelar do 25 de Novembro de 1975, a «pureza» dos Ideais de Abril aí está! E estará para durar, posto que, no agudizar da situação actual, tudo indica serem os responsáveis pelo descalabro quem irá reparar o dano.

 

Nesta insólita situação, pergunto-me se o meu país é um balão de ensaio onde uns quantos aprendizes de feiticeiros se comprazem em experimentar tropelias de mau gosto.

 

Até sempre!
Gabriel de Fochem
publicado por Do-verbo às 23:39

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