Nas estradas e encruzilhadas da Vida, liberto das roupagens da vaidade e da jactância, tento merecer esta minha condição de ser vivo.

03
Dez 08
Sagres: Navegar é preciso / viver não é preciso
 
 
Naquele dia, fui saudar o promontório.
Um dia que tardou na minha sede antiga.
Levei-lhe, no ondular dolente duma espiga,
anseios deste pão salgado e merencório.

No longe que entrevi, sem barcos e vazio,
numa apagada e vil tristeza que Camões
fixou num estertor de angústia, morte e frio,
apenas um sem fim rendido de aflições.

Do mar chegavam sons vestidos de gemidos.
Trazia a maresia um cheiro a náusea e morte.
Distante e todo azul, um céu de indiferença.

Ali, pregado ao chão, vergados os sentidos,
olhando já sem ver, o nítido recorte
da pátria por haver, das nossas mãos suspensa...
José-Augusto de Carvalho
3 de Dezembro de 2008.
Viana * Évora * Portugal
Memória da ida a Sagres, em 1964.
publicado por Do-verbo às 20:04

30
Nov 08






Agora vou e nunca mais hesito.
Agora vou rasgar o meu caminho.
Agora vou abrir ao infinito
as grades da gaiola deste ninho.

Irei além de mim e do interdito,
gritando que este mundo em desalinho,
ainda que sufoque este meu grito,
terá de abrir à Vida outro caminho!

Não mais os campos nus e abandonados!
Não mais aneis em volta da cidade
onde vegeta a fome e os deserdados!

Não mais um mar vazio de ansiedade
e barcos à deriva naufragados,
apodrecendo aos pés da indignidade!



José-Augusto de Carvalho
29 de Novembro de 2008.
Viana * Évora * Portugal

publicado por Do-verbo às 22:22

26
Nov 08


Sal e azar foi a comida
que existia para mim
e que depois foi mantida
na espelunca do delfim.

Depois, comi como gente,
mas foi sol de pouca dura...
E hoje não sei se sou gente
ou uma cavalgadura!

Aves, ovinos... -- que praga! --
foram mais outros azares.
De sabor a povo, a vaga
era gasosa... só ares!

E no fim da minha estrada,
quem quer por verdade, agora,
a sentença requentada
de que só mama quem chora?


José-Augusto de Carvalho
Viana * Évora * Portugal
(In baú do esquecimento)
publicado por Do-verbo às 22:17

24
Nov 08



A chaga aberta dói e sangra tanto,
ainda que no tempo passem anos!...
Do chão do nada, a custo já levanto
a safra de aflições e desenganos.

No peito, o coração, teimando, bate!...
Teimando, bate, bate, e não se cansa!
Nem dor nem desalento o sonho abate
dos cravos desta pátria em esperança!...

Dos fastos e desastres, a memória
de um povo erguendo a pátria à dimensão
da gesta humana em páginas de História!...

E neste cais de outono e solidão,
que fado nos impede agora a glória
de ousar no pátrio chão mais um padrão?


José-Augusto de Carvalho
24 de Novembro de 2008.
Viana * Évora * Portugal
publicado por Do-verbo às 22:37

14
Set 08


Já nasci na prisão.
Fiz do medo
um brinquedo
que trazia na palma da mão.
Fui menino enjeitado.
Fui soldado.
Fui adulto explorado.
Fui vexado.
Vi o medo tolher
quantos homens sem medo!
Vi crianças comer
um bocado já duro de pão.

E vi mães em segredo
a beijarem o pão que caíra no chão!
Eu vi tudo o que havia de feio!
E passados que são tantos anos,
um amargo receio
de não ver
esta safra de enganos
finalmente ceder
à verdade de ser.
Um receio doído,
como a fome sem pão,
como um homem traído p'la vil delação,
como a flor da esperança
que a vergonha dos homens insulta
na inocência das mãos da criança
condenada a nascer já adulta...

 

 


José-Augusto de Carvalho
20 de Abril de 2002.
Viana *Évora*Portugal
publicado por Do-verbo às 13:26

21
Mai 08




Para Jerónimo Sardinha


Da memória do tempo levanto
a magia daquela alvorada.
Foram armas e cravos de espanto
perfumando uma terra de nada.

A palavra, a doer, clandestina,
finalmente a mordaça arrancava!
Era o verbo, que tudo ilumina,
que, qual raio, na terra se crava.

E na terra de nada, a sangrar,
florescendo, as papoilas estendem
o seu manto a pulsar o querer

da manhã que, sorrindo, a chegar,
traz os astros que nunca se rendem
aos tentáculos do anoitecer.



José-Augusto de Carvalho
20 de Maio de 2008.
Viana*Évora*Portugal

publicado por Do-verbo às 16:10

15
Mar 08
        
   
 
Se não encantas cantando,
por que teimas em cantar?
Se não convences falando,
por que insistes em falar?

Quem não sabe que deliras,
ouvindo as tuas mentiras?

Quem não sabe que a vaidade
é toda a tua verdade?

Quem não sabe que Narciso
teve mais modéstia e siso?

És o anverso e o reverso
da mesma falsa moeda,
mácula do pátrio terso
que resiste e que leveda...

És o direito e o avesso
da casaca já no fio,
que, na feira, é adereço
dos arautos do sandio.
publicado por Do-verbo às 19:20

24
Fev 08

 

 

 

Hoy,
no hay nubes en el cielo
y los aullidos del viento
se han perdido a lo lejos...

Hoy,
en los caminos vacíos,
ya se borraron las huellas
de caminares antiguos...

Hoy,
tan sólo los juglares
nos traen las profecías
de otros mundos más allá...



José-Augusto de Carvalho
4.2.2008
Viana*Évora*Portugal
Do livro em construção «AL ANOCHECER»
publicado por Do-verbo às 22:23

01
Fev 08

 

 

La conquista del cielo es el límite

 

 

Hay un pájaro en su nido

 

al frío de la renuncia

 

 

Pajarito, pajarito

 

por qué no ganas alas

 

y no hieres el aire

 

hasta el lejano cielo

 

 

Hay una larga sonrisa

 

en las olas del sueño

 

 

Por qué tardas pajarito

 

si el cielo es el límite

 

 

 

José-Augusto de Carvalho
30 de Janeiro de 2008.
Viana * Évora * Portugal
publicado por Do-verbo às 16:35

15
Jan 08


Son alas de añoranza
el vuelo
que si llora en el tiempo...

Las flores de la novia
moriran
sin un amanecer...

El viento que limpiaba
el cielo
de las nubes oscuras
se fué,
perdido en las olas
del mar
de miedo y de huracánes...

Y todo
de nuevo de rodillas!
y bajo
un cielo ensangrentado
de rabia y cañoneras...


José-Augusto de Carvalho
3 de Janeiro de 2008.
Viana * Évora * Portugal
publicado por Do-verbo às 19:50

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